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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

O CAJADO OU A ESPADA

Por Rodrigo Ribeiro

Ao assistir o filme Êxodo: Deuses e Reis, do diretor Ridley Scott, fui agraciado com uma bela obra cinematográfica, e que apesar de não ser fiel ao relato bíblico, me trouxe uma reflexão fantástica ao apresentar a história de Moisés sob os olhos de um não-religioso, tentando esvaziar os elementos sobrenaturais. Este exercício foi fascinante, pois podemos analisar o contraste em que há entre a narrativa que procede de Deus e aquele que procede de homens.

O fato mais simbólico desta releitura é a substituição do cajado de Moisés por uma espada. O próprio príncipe do Egito é comissionado como um general para resgatar o povo Hebreu. Esse é o grande contraste, o mundo acredita na força da espada. Mas Deus só convocou Moisés depois de 40 no deserto conduzindo ovelhas. Deus usou o cajado. Ele escolheu o pastor. Este é o método divino de resolver as situações.

Precisamos ter isso em mente, ainda que em alguns momentos os próprios pastores falhem, como é o caso de Ezequiel 34, onde Deus acusa os pastores de estarem apascentado a si mesmo ao invés de cuidarem de suas ovelhas. Mas precisamos perceber que mesmo nesse contexto, Deus não desiste do pastoreio em prol das armas. Ele afirma que condenará os maus pastores, mas ele próprio cuidará das ovelhas, promessa que se cumpre em João 10:11, onde Cristo afirma ser o bom pastor que dá a sua vida pelas suas ovelhas.

Diante disso precisamos rejeitar o impulso do Apóstolo Pedro, de pegar em armas e travar as nossas lutas com base na força, e utilizar-se do método divino, o cajado do pastoreio. Oração, pregação, amor e cuidado. Isso não nos fará ficar calados, pois os profetas não o fizeram. Mas nos deixará distantes de meios carnais, rebeliões, contendas e manipulações. Trilhemos o caminho do pastoreio e não da espada. Se nos tornarmos generais, nos assemelharemos aos incrédulos que eliminam o elemento divino da narrativa do êxodo.

O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará. Salmos 23:1

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Rodrigo Ribeiro é presbítero e escreve na UMP da Quarta.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Escolhas de Vida

Por Nelson Bomilcar

Nossas escolhas provocam resultados a curto, médio e longo prazo. Prazos que, aliás, nunca sabemos de fato, já que a vida, segundo um escritor bíblico, é como a neblina que por um instante existe e logo se dissipa. A existência humana é curta e efêmera, com o que concordam filósofos, religiosos e pensadores de todas as épocas. A vida requer significados e propósitos para que seja justificada e, de fato, desfrutada no melhor que pode oferecer.

Fazer escolhas, talvez, seja o exercício racional e emocional mais intenso e constante durante nossa jornada como seres humanos. É experiência cotidiana da qual não podemos fugir e não temos como negar. Na infância, recebemos de pais ou responsáveis as referências que tendem a nos acompanhar pela vida afora. A partir dali, o que escolhemos e plantamos trará consequências que irão escrever nossas histórias. Deus já as conhece no tempo e espaço, mas não nos poupa ou priva de tomar as decisões que nos levará ao crescimento como seres humanos e como pessoas, para que vivamos uma fé adulta e responsável.

Fomos criados com consciência, com um mínimo de senso de certo ou errado – como Paulo esclareceu à igreja de Roma –, que ora nos acusa, ora nos absolve. Esta consciência sensibilizada pela ação do Espírito Santo em nós é que nos dá a compreensão do pecado, da justiça e do juízo; do bem e do mal. Ela traz para cada ser humano a capacidade de entender e discernir a vida no seu sentido espiritual e existencial mais profundo, que influencia nossas decisões e os relacionamentos que vamos construindo na família, na profissão, na vida em comunidade e na sociedade.

Para fazer boas e significativas escolhas, precisamos construir uma espiritualidade com raízes, alicerces bem construídos, feita com sabedoria que vem do alto e que está disponível a todos, dada liberalmente por Deus: um Deus que se apresenta, que se revela, que se relaciona, que deseja comungar conosco e partilhar com intimidade e amizade nossa existência. Isso traz repercussões éticas, morais e espirituais em nosso dia a dia, fazendo que o que somos e realizamos repercuta em nós, na nossa família, nas nossas atividades profissionais, em nosso ministério e na sociedade onde vivemos.

Escolher seguir o Deus triúno é a primeira boa escolha, reconhecendo nossa incapacidade de corresponder ao seu amor e conduzir nossa vida refletindo seu caráter, já que compartilhou conosco sua imagem e semelhança. Sem ele, não conseguimos manifestar sua glória, e nada podemos ser e fazer de forma a agradá-lo, principalmente por causa de nossa natureza caída e da nossa desistência de levá-lo a sério, vivendo inicialmente para nós mesmos. Escolher a Cristo como Senhor, Salvador, pastor e amigo é, também, uma escolha vital e inteligente, com repercussões no presente e na eternidade. Conhecer seu Evangelho e sua vontade para nós, como seres humanos, vivendo uma vida de fato significativa e relevante perante o próximo, deixará boas e profundas marcas, cuja magnitude jamais conseguiremos avaliar no todo.

Escolher valorizar a família e sua preservação em aliança, em amor e em perdão, mesmo com todos os fortes ventos contrários e lutas do caminho, é e será sempre uma escolha sábia, madura e com visão de futuro. Por outro lado, não valorizar a família e os absolutos inegociáveis de Deus – verdade, justiça, dignidade, amor e retidão –, é engano que trará tristeza, ruína e morte.

Escolher fazer o bem e o que é certo aos olhos de Deus, isto é, diante de sua Palavra revelada, do Verbo que se fez carne, do Cristo que se identificou conosco como homem, e com todas as implicações radicais de sua mensagem, será uma escolha correta, fascinante, desafiadora e abençoadora. Não nos arrependamos de fazer o bem e o que é certo para Deus; confirmaremos, assim, que estamos dispostos a amá-lo em primeiro lugar, amando ao próximo como a nós mesmos.

Escolhamos, sempre, os caminhos e valores que promovam a vida! Com nossas boas e corretas escolhas, podemos viver com alegria, esperança, profundidade e rico significado, abençoando aos que nos cercam numa saudável dinâmica comunitária. Assim, alinhamos o que somos e fazemos dentro da missão de implantar o Reino de Deus, ajudando as pessoas a seguirem, servirem e amarem o Mestre e doador da vida.

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terça-feira, 2 de dezembro de 2014

8 motivos bíblicos para dizer: “Racismo não!”

No jornal de quarta-feira eu leio as seguintes palavras:

Há forte evidência de que salientar as diferenças pouco trabalha para melhorar as relações raciais, e pode ainda exacerbar as mesmas diferenças.

Por exemplo, os distritos escolares de Minneapolis e St. Paul fizeram da dispendiosa educação de diversidade uma prioridade por décadas. Apesar disso, o distrito de Minneapolis recentemente anunciou que “racismo embutido” continua a permear as suas escolas, enquanto que um estudo de 1994 da People para a American Way descobriu que as “relações raciais e a tolerância” nas escolas de ensino médio de St. Paul estão “desmoronando”. (Katherine Kersten, “‘Diversity Training’ Efforts Proceed from False Premise,” StarTribune, 10 de Janeiro de 1996, p. A13)

E a situação também não é boa nas igrejas. Eu já ouvi observações humilhantes e prejudiciais em nossa própria igreja sobre minorias étnicas. E um pastor negro me disse recentemente que um de seus membros negros se sentiu provocado com um novo frequentador branco e disse: “Eu tenho que me aborrecer com gente branca a semana inteira; eu não quero ter que fazer isso na igreja aos domingos”.

Então já é tempo de a igreja, colocar nova energia nessa questão e trabalhá-la. Para esse fim, eu quero estabelecer um fundamento bíblico na forma de oito teses.

1. Deus criou todos os grupos étnicos a partir de um ancestral humano. Atos 17.26:

[Deus] de um só fez toda a raça humana [pan ethnos = todo grupo étnico] para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação.

Observe duas coisas nesse texto.

Primeiro, observe que Deus é o CRIADOR dos grupos étnicos. “Deus fez de um só toda a raça humana”. Grupos étnicos não simplesmente aconteceram a partir de mudanças genéticas aleatórias. Eles aconteceram pelo desígnio e propósito de Deus. O texto diz claramente: “DEUS criou cada ethnos”.

Segundo, observe que Deus criou todos os grupos étnicos a partir de um ancestral humano. Paulo diz: “Ele fez DE UM SÓ cada ethnos”. Isso tem um murro especial quando você pondera o porquê de ele escolher dizer especificamente isso a esses atenienses no aerópago. Os atenienses apreciavam se vangloriar de que eles eram os autochthones, que quer dizer que eles haviam nascido em seu próprio solo nativo e não eram imigrantes de algum outro lugar ou grupo étnico. (Veja Lenski e Bruce, ad. loc.) Paulo escolhe confrontar esse orgulho étnico logo de cara. Deus criou todos os grupos étnicos — atenienses e bárbaros — e ele os criou a partir de um ancestral comum. Então vocês, atenienses, são feitos do mesmo tecido que os desprezados bárbaros e citas.

2. Todo membro de todo grupo étnico é feito à imagem de Deus. Gênesis 1.27:

Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

Quando você coloca esse ensino de Gênesis 1 (que Deus criou o primeiro homem à sua imagem) junto com o ensino de Atos 17.26 (que Deus criou todos os grupos étnicos a partir desse primeiro ancestral), o que surge é que todos os membros de todos os grupos étnicos são criados à imagem de Deus.

Não importa qual a cor da pele, ou as feições do rosto, ou a textura do cabelo, ou outros traços genéticos; todo ser humano em todo grupo étnico possui uma alma imortal à imagem de Deus: uma mente com poderes de raciocínio singulares semelhantes aos de Deus, um coração com capacidade para julgamentos morais e afeições espirituais, e um potencial para relacionamento com Deus que separa completamente cada pessoa dos animais que Deus criou. Todo ser humano, seja qual for a cor, forma, idade, gênero, inteligência, saúde ou classe social, é criado à imagem de Deus.

3. Na determinação do significado de quem você é, ser uma pessoa à imagem de Deus se compara com as diferenças étnicas da mesma maneira que o sol do meio dia se compara com um castiçal.

Em outras palavras, encontrar a sua identidade principal em ser branco ou ser negro, ou em qualquer outro traço de cor étnico, é como se orgulhar de carregar uma luz de vela debaixo do céu sem nuvens ao meio dia. Velas têm seu lugar. Mas não para iluminar o dia. Então cor e etnia têm o seu lugar, mas não como a glória e maravilha principal da nossa identidade como seres humanos. A glória primária de quem nós somos é o que nos une em nossa humanidade semelhante a Deus, não o que nos diferencia em nossa própria afiliação étnica.

Essa é a mais fundamental razão pela qual programas de “treinamento de diversidade” normalmente dão um tiro no pé em sua tentativa de nutrir respeito mútuo entre grupos étnicos. Eles concentram maior atenção no que é comparativamente menor, e virtualmente nenhuma atenção no que é infinita e gloriosamente maior — nossa permanência singular sobre toda a criação como indivíduos criados à imagem de Deus.

Se os nossos filhos e filhas têm cem ovos, vamos ensiná-los a colocar noventa e nove ovos na cesta chamada “pessoa feita à imagem de Deus” e um ovo na cesta chamada “distinção étnica”.

4. A predição de uma maldição que Noé proclamou sobre alguns descendentes de Cam em Gênesis 9.25 é irrelevante na decisão de como a raça negra deve ser vista e tratada.

Ao longo dos séculos algumas pessoas tentaram provar que a raça negra está destinada a ser subserviente por causa das palavras de Noé sobre o seu filho Cam que foi o pai dos povos africanos. Observemos o próprio texto da Escritura, e então eu darei três razões de porque isso não determina como os povos da África devem ser vistos e tratados. Lembre-se que Noé tinha três filhos: Sem, Cam e Jafé.

Gênesis 9.21–25:

Bebendo do vinho, embriagou-se [Noé] e se pôs nu dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã, vendo a nudez do pai, fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos. Então, Sem e Jafé tomaram uma capa, puseram-na sobre os próprios ombros de ambos e, andando de costas, rostos desviados, cobriram a nudez do pai, sem que a vissem. Despertando Noé do seu vinho, soube o que lhe fizera o filho mais moço. Então disse: “Maldito seja [ou “será”] Canaã; seja servo dos servos a seus irmãos”.

Agora observe três coisas:

A Maldição de Noé Cai sobre Canaã 

Primeiro, Noé toma essa ocasião do pecado de seu filho Cam e a usa para fazer uma predição sobre a prosperidade do filho mais novo de Cam, Canaã. Basicamente a predição é que os cananitas eventualmente seriam subjugados pelos descendentes de Sem e Jafé.

Ora, há muitas perguntas a se fazer aqui. Mas eu só tenho tempo para apontar algumas poucas relevantes ao nosso ponto principal. Cam tinha quatro filhos de acordo com Gênesis 10.6. “Os filhos de [eram] Cam: Cuxe, Mizraim, Pute e Canaã”. Ora, em termos gerais, Cuxe é provavelmente o ancestral dos povos da Etiópia; Mizraim é o ancestral dos egípcios; e Pute é o ancestral dos povos do norte da África, os líbios. Mas Canaã é o único dos quatro filhos que não é ancestral de povos africanos. Gênesis 10.15–18 cita os descendentes de Canaã: “Canaã gerou a Sidom, seu primogênito, e a Hete, e aos jebuseus, aos amorreus, aos girgaseus, aos heveus, aos arqueus, aos sineus, aos arvadeus, aos zemareus e aos hamateus”. Todos esses povos eram habitantes de Canaã e proximidades, não da África. E a predição de Noé se tornou verdade quando as nações cananitas foram expulsas pelos israelitas por causa de sua perversidade (Deuteronômio 9.4–5). Então a maldição não recai sobre os povos africanos, mas sobre os cananitas.

A Maldição de Noé Não Trata de Indivíduos

Segundo, a nação predita de Noé não dita como o povo de Deus deve tratar cananitas individuais. Por exemplo, cinco capítulos depois, em Gênesis 14.18, Abraão, descendente de Sete, encontra um cananita nativo chamado Melquisedeque, que era homem justo e “sacerdote do Deus Altíssimo”, e que abençoou Abraão. Abraão deu a ele o dízimo dos seus espólios. Então nem mesmo o fato de que Deus ordena julgamento sobre nações perversas dita a nós como devemos tratar indivíduos nas mesmas nações.

Deus Planeja Redenção para Todas as Nações

Terceiro, em Gênesis 12, Deus coloca em ação um grande plano de rendenção para todas as nações, para resgatá-las dessa e de qualquer outra maldição de pecado e julgamento. Ele chama a Abrão para todas as nações e faz uma aliança com ele e promete: Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra”. “Todas as famílias da terra” inclui as famílias cananitas.

Então o que vemos é que, com Abraão, Deus está colocando em ação um plano de redenção que derruba cada maldição sobre qualquer pessoa que recebe a bênção de Abraão, a saber, o perdão e a aceitação de Deus que vem através de Jesus Cristo, a semente de Abraão (Gálatas 3.13–14). O que nos leva para a quinta tese:

5. É propósito e ordem de Deus que façamos discípulos para Jesus Cristo de cada grupo étnico do mundo, sem distinção. Mateus 28.18–20:

Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.

Fazei discípulos de “todas as nações” — isto é, de todo grupo étnico. É a mesma expressão de Atos 17.26, onde diz que Deus de um só criou “toda a raça humana” — todo grupo étnico. Assim como todos os grupos étnicos são criados à imagem de Deus, o objetivo de Deus é redimir pessoas de todo grupo étnico. O fato de sermos feitos à imagem de Deus não significa que somos salvos. Todos somos distorcidos pelo pecado. As singulares maneiras em que fomos criados para refletir a glória e o valor de Deus foram amplamente arruinadas. Então Deus enviou o seu Filho, Jesus, ao mundo para morrer por nós para que possamos crer nele e ser perdoados, limpos e restaurados, para que nos tornássemos troféus da sua graça.

6. Todos os crentes em Jesus Cristo, de todo grupo étnico, são unidos uns aos outros não apenas em uma simples humanidade à imagem de Deus, mas ainda mais, como irmãos e irmãs em Cristo e membros do mesmo corpo. Romanos 12.4–5:

Assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros têm a mesma função, assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros.

O corpo de Cristo tem uma mão negra, um pulso branco, um braço amarelo e um ombro vermelho. E o pulso branco não pode dizer para a mão negra: “Não preciso de você” (1 Coríntios 12.21). E o braço amarelo não pode dizer ao ombro vermelho: “Por eu não ser um ombro, não sou parte do corpo” (1 Coríntios 12.15).

Outra figura, além de um corpo, é uma família.

1 João 3.1:

Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus.

Em outras palavras, se a nossa identidade como indivíduos humanos criados à imagem de Deus é maior do que todas as diferenças étnicas (visto no ponto no. 3), então a nossa identidade como filhos de Deus renascidos é ainda maior do que todas as diferenças étnicas. Eu diria da seguinte maneira: A glória da nossa semelhança familiar em Cristo é muito maior do que as nossas diferenças étnicas, tanto quanto o oceano é maior do que um dedal.

Antes vimos uma grande verdade — de que somos mais unidos pela nossa humanidade do que separados pela nossa afiliação étnica. Mas essa é uma verdade ainda maior, que em Cristo temos unidade sobre unidade. No topo de uma comum pessoalidade humana à imagem de Deus, temos uma comum pessoalidade redimida à imagem de Cristo. E quão menos devemos ser divididos pelas nossas diferenças étnicas! “[Não há] grego nem judeu, circuncisão nem incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; porém Cristo é tudo em todos” (Colossenses 3.11).

7. A Bíblia proíbe casamento entre um crente e um incrédulo, mas não entre membros de diferentes grupos étnicos. 1 Coríntios 7.39:

A mulher está ligada enquanto vive o marido; contudo, se falecer o marido, fica livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor.

“Somente no Senhor”. A Bíblia nos direciona claramente a não casar com incrédulos. Se já estamos casados com um incrédulo, devemos permanecer casados (1 Coríntios 7.12–13; 1 Pedro 3.1–6). Mas se estamos livres para casar, devemos casar apenas com aquele que compartilha da nossa lealdade a Jesus.

Esse era o ponto principal das advertências do Antigo quanto a casar com aqueles que pertenciam a nações pagãs. Por exemplo, Deuteronômio 7.3–4:

Nem contrairás matrimônio com os filhos dessas nações; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos; pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós outros.

A questão não é mistura de cores, ou mistura de costumes, ou identidade do clã. A questão é: haverá uma lealdade comum ao Deus verdadeiro nesse casamento, ou haverá afeições divididas? A proibição na Palavra de Deus não é contra casamento inter-racial, mas contra casamento entre crente e incrédulo. Isso é exatamente o que esperaríamos se a grande base da nossa identidade não são as nossas diferenças étnicas, mas a nossa comum humanidade à imagem de Deus e a nossa nova humanidade à imagem de Cristo.

8. Portanto, contra o crescente espírito de indiferença, alienação e hostilidade no nosso país, nós abraçaremos a supremacia do amor de Deus para dar novos passos pessoal e coletivamente em direção à reconciliação racial, expressada visivelmente em nossa comunidade e em nossa igreja. Que venhamos a banir cada pensamento de depreciação e falta de amor das nossas mentes.

Expulsemos de nossas bocas cada palavra ou tom de escárnio ou desdém.

Saiamos do nosso conforto para mostrar unidade pessoal e afetuosa com cristãos de todos os contextos étnicos.

Sejamos o sal e a luz da nossa hostil e assustadora sociedade com atos corajosos de bondade e respeito inter-raciais.

Resumindo, olhemos para Cristo e sejamos perdoados, limpos, curados e capacitados ao amor.

[John Piper é um dos ministros e autores cristãos mais proeminentes e atuantes dos dias atuais, atingindo com suas publicações e mensagens milhões de pessoas em todo o mundo. Ele exerce seu ministério pastoral na Bethlehem Baptist Church, em Minneapolis, MN, nos EUA desde 1980]

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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Tom Jobim e os Salmos

Gerson Borges

Pouca gente lê biografia no Brasil. Aliás, pouca gente lê por aqui. Fato. Livro é caro, a tecnologia deixa nosso lazer cada vez mais online e rouba descaradamente o maior e melhor ócio criativo: a “leitura por prazer, por deleite”, a que realmente conta e molda a alma1.

Poucos de nós conhecem (detalhadamente) a história de grandes brasileiros como Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o nosso querido Tom Jobim. Muita gente, aqui e mundo a fora, conhece sua maravilhosa música. Canções como “Garota de Ipanema, Wave” (“Vou te contar”) e “Águas de Março” só tocam menos nas rádios americanas e européias do que Lennon & MacCartney (mas aí não vale, gravaram em inglês). E quantos tesouros à nossa espera em obras como “Antônio Carlos Jobim – um homem iluminado”, escrito por sua irmã Helena Jobim2! Devorei o texto muito bem escrito, afetivo e cheio de coisas maravilhosas para a minha reflexão costumeira sobre a afinidade entre criatividade e espiritualidade, beleza e verdade, cultura brasileira e “Graça comum”, como diriam os teólogos reformados. Como epígrafe, nada mais do que uma pérola, nesse depoimento sobre sua vocação artística a uma faculdade carioca:

“A criação é um ato de amor, alguma coisa que se comunica a toda a humanidade. Um artista não pode fazer nada que contribua para piorar o mundo. Acho que tenho deveres para com as pessoas com quem convivo”.

Ou ainda, uma meditação que nos lembra Paulo argumentando a respeito da “Revelação Geral”, como se diz teologicamente (Rm 1.23): “Os atributos invisíveis de Deus ...Por meio das coisas que foram criadas”):

“A vida tem um sentido oculto, certamente. Fui criado em ambiente cético, de maneira agnóstica. Diante da natureza, sinto que toda a negação é ingênua, que Deus não nos teria criado para o nada”.

O texto biográfico, sempre muito pessoal e afetivo, como não poderia deixar de ser uma narrativa feita por sua irmã, tão amada e próxima, vai descrevendo a personalidade sensível, introspectiva e gentil de Tom, menino inteligente que sofreu com o pai emocionalmente doente, mas soube desfrutar da biblioteca do avô agnóstico (que lhe punha na cama com a bênção “Deus lhe crie para o bem”), suas brincadeiras infantis e adolescentes nas praias cariocas ainda quase desertas e da preciosa companhia da irmã. Também vamos tomando contato com a postura mais séria com a música, seus estudos com mestres notáveis, seu casamento com Thereza aos 22 anos e até uma epifania interessantíssima que vivera no sítio da família, no meio do mato, quando “todo e qualquer medo cessou em seu corpo e em seu espírito. Não havia mais medo da morte...”.

E, então, Tom vai aos poucos ganhando o mundo: a Sinfonia do Rio de Janeiro, Orfeu da Conceição, João Gilberto, a parceira com Vinícius , a explosão da Bossa Nova, Frank Sinatra... Bem, o resto já sabemos: ele é o maior nome da música (eu diria, da cultura brasileira) no exterior. 1987, aos 60 anos, o “maestro soberano” - como lhe chama Chico Buarque - cada vez mais próximo da literatura, escreveu o longo poema “Chapadão”, onde lemos coisas tais como:

Vou fazer a minha casa 
No alto do Chapadão 
Vou levar o meu piano 
Que ficou no Canecão (...)

Vou fazer a minha casa 
Do alto de uma canção 
E agradecer a Deus Pai 
A sobrante inspiração (...)

Minha casa não terá 
Nem sábado nem domingo 
Todo dia é dia santo 
Todo dia é dia lindo (...)

Vou fazer o meu retiro 
Na grota do chororão 
A minha casa será 
Uma casa de oração.

Mas, como nos lembra solenemente o texto sagrado, “Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do céu; tempo de nascer e tempo de morrer” (Eclesiastes 3.1,2). Jobim adoeceu e faleceu em dezembro de 1994, por causa de complicações respiratórias e cardiológicas resultantes da cirurgia que realizara para retirar um tumor maligno na bexiga, no Hospital Mount Sinai, em Nova Iorque. Enquanto esperava o resultado dos exames e o procedimento cirúrgico, 45 dias angustiantes nos quais “todo dia um pastor evangélico brasileiro chamado Zeni o visitava. Liam juntos os Salmos”.

Os Salmos? Sim, os Salmos. Tom dissera no seu poema que desejava que sua última casa fosse uma “casa de oração”. Os Salmos são essa casa onde mora a oração, onde a alma habita e descansa, onde se aprende a oração mais profunda, honesta e transformadora. A mesma que Jesus frequentou. A mesma que homens de Deus como Santo Agostinho conheciam tão bem. Nas suas “Confissões”, a mãe de todas as biografias, o bispo de Hipona ora: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”.

Eu, que amo a obra do compositor carioca; eu, que já apreciava a sua personalidade generosa e sincera, me vi emocionado ao saber que Jobim, nas últimas semanas de vida, fez dos Salmos de Davi, a escola de oração do Povo de Deus, tanto Israel quanto a Igreja, a sua casa de oração. Os Salmos formam, como gosta de descrevê-los Eugene Peterson, “nossos modelos de oração”. Há um salmo para cada espécie de situação humana. Essas orações antigas e tão atuais são “a anatomia da alma”, na expressão consagrada de João Calvino. Ainda que Calvino, que obviamente amava o Saltério, tenha dito isto, também observava que na oração, “a linguagem nem sempre é necessária, mas a oração verdadeira não pode carecer de inteligência e de afeto e de ânimo”. É como teria dito Luther King: “É melhor uma oração sem palavras do que palavras sem oração”. Os Salmos, contudo, equilibram a oração e a palavra.

Tom descobriu isso, uma linguagem para buscar a Deus. Uma oração bíblica. O livro termina com uma cena pungente: o filho de Tom, Paulo Jobim, aguardando notícias do amado pai, ajoelhado chorando ao lado da cama, mãos postas e orando o Salmo 91: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo à sombra do Onipotente descansará”. Oração, especialmente os Salmos, não é para quem se acha fraco. Oração é para quem sabe que é fraco. E que precisa do Pai. Orar, ser cristão, “é chamar Deus de Pai”3. É assim que Jesus, que tanto amava os Salmos, ora e nos convida a orar.

Notas:

1. Harold Bloom 
2. Editora Nova Fronteira 
3. J. I. Packer

Gerson Borges é pastoreador: pastor evangélico, poeta/musico e educador.

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terça-feira, 4 de novembro de 2014

A QUEDA DE MARK DRISCOLL E A MORTE DA MARS HILL

Por Alessandro Brito

Talvez a notícia de maior repercussão das redes de comunicação gospel, em 2014, seja a saída de Mark Driscoll da mega igreja Mars Hill e o anuncio do fechamento de todas as suas igrejas “satélites”. O que me chama atenção é o fato de que o próprio pivô das manchetes já havia deixado claro que isso tudo um dia aconteceria. Em 2012, Driscoll publicou um artigo intitulado, The 9 Seasons of a Church’s Life (As 9 Estações da Vida de uma Igreja), onde apresentou a morte da igreja local como parte natural de seu ciclo de vida:

Quando uma igreja não é saudável, ela morre. Uma igreja não é saudável quando não mais experimenta o crescimento por meio da conversão ou atrai jovens líderes. Neste ponto a igreja enfrenta um dilema fundamental. Um, ela pode negar a sua morte iminente, vender seus ativos para prolongar a sua morte, redefinir sua missão a fim de defender-se da sua morte, e simplesmente sobreviver à medida que de forma lenta e dolorosamente morra e reescrever os melhores anos de sua história para se sentir importante e bem sucedida. Dois, ela pode abraçar a sua morte iminente como uma oportunidade para ressuscitar.[1]

O que as igrejas e líderes eclesiásticos podem aprender com essa experiência? Existe uma forma de se evitar a queda e o fechamento de uma igreja local? Quero responder a estas perguntas destacando duas grandes lições do ocorrido utilizando o próprio ensino de Driscoll.

A primeira lição é que uma igreja ou sua liderança quando enfermas morrem. A doença que levou a queda de Driscoll, de acordo com Tim Keller, pastor da Igreja Presbiteriana Redeemer em Nova York, foi: “… a arrogância e a grosseria nas relações pessoais, que ele mesmo confessou várias vezes…”.[2]

A própria Mars Hill reconheceu isso ao dizer em seu web site que: “…o Pastor Mark tem, às vezes, sido culpado de arrogância, respondendo a conflitos com um temperamento explosivo e fala dura, e liderado a equipe e os anciãos de uma forma dominadora”.[3] Claro que várias outras acusações foram feitas em relação ao ministério de Mark Driscoll, porém é obvio que a raiz de sua queda e consequentemente de sua igreja foi a arrogância, ou seja, orgulho. O mesmo mal que levou Satanás e Adão a se rebelarem contra Deus e consequentemente caírem.[4]

A questão é que todos nós somos participantes da queda, pois somos pecadores, e tão culpados quanto Driscoll, a final de contas, somos todos orgulhosos, mesmo quando não admitimos isso.[5] Se perguntarmos, por exemplo, a vários líderes qual é o propósito de seus ministérios ou de suas igrejas, as respostas certamente serão bíblicas, porém ao observaremos as suas atitudes chegaremos a conclusão de que estão de forma orgulhosa colocando toda glória devida a Deus em segundo plano.

Não tem como negar que uma infinidade de igrejas e pastores evangelizam para aumentar o número de membros e não para ver mais pessoas refletindo os atributos de Deus. Que discipulam para dominar seus membros por meio de doutrinas humanas e não para ensinar pessoas a refletirem a Deus corretamente. Que fazem justiça social para atrair os holofotes para si mesmos e não para glorificar a Deus por meio de boas ações mesmo que ninguém venha a ficar sabendo. O resultado deste desvio de propósito ministerial e eclesiástico é o que faz com que muitos vivam como se o tempo não tivesse um fim, assim como diz a Bíblia: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.”[6]

A segunda está relacionada ao tempo, pois uma igreja ou sua liderança fatalmente morrerão um dia. Mars Hill, por exemplo, será uma das mais de 4.000 igrejas que, segundo as estatisticas, fecham a cada ano Estados Unidos.[7] O problema é que vários líderes na busca de imortalizarem as suas igrejas não levam em consideração o ciclo natural da vida. Várias igrejas e líderes no intuito de prolongarem seus ministérios e a vida de suas igrejas dedicam tempo e recursos financeiros em suas suntuosas construções ou ministérios, ao invés de focarem naquilo que Jesus deixou como comissionamento.

Quando entendemos que somos limitados pelo tempo e espaço mudamos as nossas perspectivas e atitudes. Passamos a encarar a vida com um senso de urgência missionário e nos desprendemos das coisas terrenas. Isso acontence, pois a iminente certeza da morte nos faz repensar sobre a razão de nossa existência e levanta questionamentos do tipo: o que eu faria se hoje fosse o meu último dia de vida?

Steve Timmis, atual presidente da Acts 29 (Rede de plantação de igrejas fundada por Mark Discoll), encara o declínio das igrejas da seguinte forma:

É fácil, para nós, cristãos, desanimar quando lemos sobre a diminuição da frequência na igreja ou sobre a secularização da nossa cultura. Mas nós nos empolgamos com o futuro… A perda de frequência na igreja se deu em grande parte por causa da saída de cristãos nominais. Como resultado, o que sobrou pode estar mais sadio. Agora temos a oportunidade de nos tornarmos comunidades focadas em Jesus e a sua missão.[8]

John Piper diz que: “Nossa missão jamais deve ser apenas uma missão de ‘venha e veja’. Ela tem de ser missão de ‘Vá e fale’”.[9] Para Deus são justamente as nossas ações que abrirão a porta do Espírito Santo e logo determinarão o tempo de vida de nossas igrejas e ministérios. Para Deus o problema não está no fim da vida de uma congregação, mas em uma congregação morta ainda que aparentemente viva. As cartas enviadas para as sete igrejas da Ásia não foram escritas com a promessa de eternidade para as mesmas, mas um lembrete de que tinham uma missão a cumprir enquanto vivas.

Espero que Driscoll abrace a aparente morte da Mars Hill e seu ministério na expectativa de um renascimento tendo em mente que sem a morte não há ressurreição. Assim como também espero que nós, líderes e igrejas, não venhamos a ter a arrogante atitude de que somos indestrutíveis, mas que nossos dias se prolonguem por meio de uma mansa e humilde atitude que vise somente a glória de Deus.

Notas:

[1] http://theresurgence.com/2012/06/11/the-9-seasons-of-a-churchs-life
[2] http://www.nytimes.com/2014/08/23/us/mark-driscoll-is-being-urged-to-leave-mars-hill-church.html?smid=tw-share&_r=2
[3] https://marshill.com/2014/10/15/pastor-mark-driscolls-resignation
[4] Isaías 14:12-14; Ezequiel 28:12-15
[5] Romanos 3.23
[6] Eclesiastes 3.1,2
[7] WIN Arn, The Pastor’s Manual for Effective Ministry. Monrovia, CA, Church Growth, 1988, p.16
[8] CHESTER, Tim; TIMMIS, Everyday Church: Gospel Communities on Mission. Nottingham, UK: IVP, 2011, p.11
[9] Piper, John Evangelização e Missões: Proclamando o Evangelho para a Alegria das Nações. São José dos Campos: Editora Fiel, 2011, p. 77

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Fonte: Gospel Prime, via Púlpito Cristão.

Matou Deus e foi ao cinema evangélico

por Joêzer Mendonça

Eu bem que queria que fosse diferente, mas “Deus não está morto” é um filme que, embora queira partilhar uma mensagem profunda, é raso de espírito. Deus não está morto, mas a qualidade do cinema evangélico não passa bem.

Não vou falar da performance dos atores, da fotografia ou dos diálogos, todos de um primarismo que se nivela a um seriado bíblico da TV Record. Isso até seria uma marca das produções religiosas nacionais (de qualquer crença). Aliás, muito espectador dessas produções invoca uma virtude cristã, como a condescendência, para assisti-las.

Nada disso, porém, seria um problema se a densidade da mensagem que se deseja divulgar fosse transmitida com acuidade e grandeza de espírito e não só com suposta nobreza de intenção.

O enredo trata de personagens evangélicos que são perseguidos e humilhados, mas têm uma luz celestial que lhes afasta de toda incerteza ou falta de racionalização crítica. Parece que são capazes de superar doenças com doses de cânticos e orações.

Já os não cristãos são vilões caricatos que, se não acreditam na existência de Deus, é porque eles sofrem com traumas do passado ou de autossuficiência arrogante, já que todas as evidências estariam aí para providenciar a aceitação lógica da fé.

Não importa se o personagem é ateu ou cristão, ele será mostrado por meio de ideias preconceituosas e estereotipadas. Ninguém parece de carne e osso, mas apenas fantoches que se revelam como um tipo de evangélico falacioso e um espécime de ateu presunçoso.

Entre tantos equívocos, o filme acaba mostrando uma noção nada cristã de Deus: a do ser vingativo que não suporta que ninguém discorde d’Ele, ainda que esse alguém não seja pior do que aqueles que professam a fé n’Ele.

A menina islâmica se converte ao cristianismo? Há um pai autoritário que a punirá. O rapaz é humilhado por causa de sua retórica evangélica? Seu opressor será punido. O professor não acredita na obviedade da existência de Deus? O próprio Deus o punirá.

Ao final, os humilhados sentem o gosto de vitória, o que demonstra mais uma ideia do evangelicalismo atual que repete chavões triunfalistas de prosperidade pessoal. É o típico pensamento que circula em adesivos colados nos carros e em tantos refrões gospel.

Se a intenção era falar com quem não é cristão, o filme mostra um envelhecido e antipático discurso em relação a quem não enxerga a vida pelo mesmo prisma. Se era rebater Nietzsche, o bigodudo filósofo alemão é abordado de forma superficial e rasteira. Se o objetivo era pregar para os iniciados, duvido que todo protestante vá comprar essa retórica que promete uma solução fácil para questões de resolução bem complexa.

É uma pena que, na tentativa de ser didático, o filme esbarre em argumentos simplistas. Dá a entender que, se a Bíblia tivesse sido escrita pelos roteiristas de filmes gospel, a fé cristã não teria motivado nem um aleluia de Handel, quanto mais a persistência e fidelidade milenar dos cristãos.

Joêzer Mendonça é doutor em Musicologia e professor de História da Música na PUCPR. No blog Nota na Pauta escreve sobre arte, mídia e religião.

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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Rocha, de T.S.Eliot: a relação entre a cultura e a igreja

por Gladir Cabral

Os críticos literários, de um modo geral, olham com suspeita para os escritores que se deixam converter por uma experiência religiosa, principalmente se for cristã, como se a conversão comprometesse o talento do artista e pusesse a perder a qualidade da sua obra. É o caso de autores famosos, como o nosso conhecido C.S. Lewis, o poeta W.H. Auden e o dramaturgo, poeta e crítico literário T.S. Eliot, que se converteu do ateísmo ao cristianismo anglicano com a idade de 39 anos.

A peça dramática A Rocha contém 10 coros escritos para uma produção encenada em meados de 1934 na diocese de Londres. Inconformado com o crescente processo de secularização da sociedade britânica, que perdeu a chama da vida, a sabedoria e se perdeu no excesso de informação, Eliot lança seu protesto e seu apelo por uma mudança cultural. Muita informação e pouca sabedoria, “muita leitura e pouca Palavra de Deus”, “muita construção, mas não da Casa de Deus”.

Caminhando pelas ruas de Londres, o poeta ouve comentários de censura e rejeição: “Que os padres se aposentem. Os homens não precisam da Igreja [...] Na cidade, não precisamos de sinos”. E nos subúrbios também não há mais espaço para a Igreja, apenas para as indústrias e o lazer. Para o poeta, essa crise representa a morte da sociedade. Nestes tempos estranhos, o próprio núcleo familiar perde sua base de sustentação e sua unidade, pois “[f]amiliarizados com a estrada e sem paradeiro, nem a própria família anda junto”. As pessoas vivem agora dispersas “entre ruas que se engalham, e ninguém conhece ou se importa com seu vizinho, a não ser que ele o perturbe”.

A obra fala da crise da Igreja, que “tem de ser construída sempre, pois está sempre se corrompendo por dentro e sendo atacada por fora”. Há uma grande obra de restauração a ser feita, e trabalhadores são chamados com urgência, e todos são desafiados a participar, pois “[h]á muito que derrubar, há muito que construir, há muito que restaurar”. A obra está recheada de referências ao livro de Neemias e ao relato da reconstrução do templo de Jerusalém: “Lembrem-se das palavras de Neemias, o Profeta!”. E é preciso construir com o a ajuda do Eterno, pois “construímos em vão se o Senhor não construir conosco. Pode-se guardar a Cidade que o Senhor não protege?”. Evidentemente, há resistências, há oposição, mas a reforma é uma tarefa urgente e contínua.

A Rocha é figura central do poema, é o Filho do Homem, aquele que virá como Forasteiro, “Cristo Jesus Ele Próprio a principal pedra angular”. E ao encaminhar-se para o fim, com a obra de reconstrução sendo completada, “depois de muita luta e de muitos obstáculos”, o poema é cada vez mais invadido pela luz. “Ó Luz Invisível, nós te glorificamos!”.

Referências:
ELIOT, T.S. Obra Completa. Trad. Ivan Junqueira. São Paulo: Arx, 2004. Vol. I ELIOT, T.S. Coros de “A Rocha”. Edição portuguesa.

Gladir Cabral é professor universitário, músico e compositor. Exerce o pastorado na Igreja Presbiteriana do Brasil.

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sábado, 1 de novembro de 2014

Jesus Pressupôs a Lógica

Por John Piper

Veja agora Lucas 12. Meu argumento neste ponto é que Jesus supôs que a mente humana usa a lógica e considerou as pessoas responsáveis por usarem bem a sua lógica. Às vezes, pessoas me dizem que a lógica aristotélica é ocidental e grega, não hebraica ou bíblica, e, portanto não tem lugar na apresentação do evangelho.

Explicarei o que quero dizer ao falar em lógica aristotélica. Todos sabemos o que é um silogismo. Premissa número 1: Todos os homens são mortais. Premissa número 2: Platão é um homem. Conclusão: Platão é mortal. Isso é um silogismo. Aristóteles é famoso por notar isso. E, creio, isso veio de Deus.

Ora, você tem que decidir: Deus nos considera responsáveis por pensarmos com esse tipo de clareza? Deus ficaria satisfeito se você usasse um silogismo como este: Vacas tem quatro patas. Meu cachorro tem quatro patas. Portanto, meu cachorro é uma vaca? Acho que Deus não ficaria satisfeito se você pensasse dessa maneira. Isso é lógica horrível. É o tipo de lógica que bandidos usam para colocar você na prisão de um ditador e não lhe oferece nenhum recurso para “argumentar”.

É claro que você deve se importar pouco com minha opinião sobre lógica. Mas deve se importar muito com a opinião de Jesus sobre lógica. Então, ouça cuidadosamente Lucas 12. 54-57:

E dizia [Jesus] também à multidão: Quando vedes a nuvem que vem do ocidente, logo dizeis: Lá vem chuva, e assim sucede. E, quando assopra o sul, dizeis: Haverá calma; e assim sucede. Hipócritas, sabeis discernir a face da terra e do céu; como não sabeis então discernir este tempo? E por que não julgais também por vós mesmos o que é justo?

Observe o silogismo implícito no versículo 55. Jesus estava dizendo aquelas pessoas: vocês são realmente bons em usar a mente em assuntos como o clima. Então, aqui está o silogismo. Premissa número 1: Sempre fica quente quando sopra o vento sul. Premissa número 2: um vento sul está soprando. Conclusão: será quente hoje.

Ora, isso é lógica aristotélica, que eu creio, sendo corretamente construída, vem da mente de Deus e foi confirmada pelo exemplo de Jesus, que considerou aquelas pessoas responsáveis por usá-la bem.

O que vocês acham que Jesus quis dizer no versículo 57? “E por que não julgais também por vós mesmos o que é justo?” A mente de vocês é tão eficaz quando lida com as coisas naturais! Mas, quando a mente de vocês é aplicada às coisas espirituais, vocês não pensam com clareza, de maneira alguma! Isso é semelhante à condição de pessoas contemporâneas que são capazes de fazer coisas cientificas admiráveis – criar remédios, criar computadores, colocar pessoas no espaço. O homem secular, sem o evangelho, usa sua mente de maneiras admiráveis. Acho que Jesus diria a uma pessoa secular educada na universidade: “Por que você não usa essa mente brilhante para entender-me e conhecer-me?” É para isto que a mente existe – conhecer a verdade e despertar afeições para com Deus que correspondam à sua grandeza.

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Extraído do livro "O Pastor como Mestre e o Mestre como Pastor". Pág 66,67 e 68.

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Fonte: Blog Electus.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Pode um cristão ficar possuído pelo diabo?


Por Wilson Porte Jr

Quando o espírito imundo sai do homem, anda por lugares áridos, procurando repouso; e, não o achando, diz: Voltarei para minha casa, donde saí.

Lucas 11.24

Pode um cristão ficar possuído por um demônio? Não! Um cristão verdadeiro jamais poderá ser possuído por um espírito imundo. Este é o nome que Jesus dava a tais espíritos que possuíam pessoas ou animais. Sabe-se que nem todos os demônios possuem pessoas, mas alguns o fazem, por motivos não muito claros a nós. O que se sabe vem do bom senso e das palavras dos próprios demônios que não são palavras nada confiáveis.

Em 1Jo 5.18-19, o Espírito Santo nos instrui pela Palavra o seguinte:

Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado; antes, Aquele que nasceu de Deus o guarda, e o Maligno não lhe toca. Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno.

A primeira informação deste texto é que a pessoa que se converteu não vive mais na prática do pecado. Isso não significa que tal pessoa não peca mais, mas que o pecado, agora, será apenas um acidente na peregrinação de tal pessoa. Antes, o pecado era uma constante, um prazer diário. Agora, apenas um acidente que traz profunda tristeza àquele que o comete.

São tais pessoas, para as quais o pecado traz tristeza e faz parte da batalha do dia a dia, que são chamadas pela Bíblia de “nascidos de Deus”. Para elas, assim como para Deus, o pecado é algo que traz tristeza e, muitas vezes, ódio. É dos cristãos amar o que Deus ama e odiar o que Deus odeia. Alguém que ama o que Deus odeia e odeia o que Ele ama ainda não “nasceu de Deus”, termo usado pelo apóstolo João no verso acima.

E são estes nascidos de Deus que não podem ser tocados pelo Maligno. Tais pessoas são guardadas pelo Espírito. O Espírito Santo de Deus as reveste impedindo qualquer ação demoníaca em tais pessoas. As pessoas convertidas foram seladas com o Espírito de Deus e isso lhes confere até mesmo autoridade sobre espíritos demoníacos.

“O mundo inteiro jaz no Maligno”, ou seja, não há nada neste mundo que esteja fora da ação demoníaca do Maligno. Tudo está sob sua ação e intervenção. Apenas aquilo e aqueles a quem o Senhor deseja guardar são protegidos. Deus está acima do Maligno. Não há rivalidade, ou guerra entre Deus e o Maligno. Há apenas um Soberano: Deus. Mesmo a autoridade do Maligno sobre seres humanos e animais encontra-se debaixo da autoridade de Deus. Ou seja, qualquer palavra de Deus faz com que o Maligno pare na mesma hora o que ele está fazendo e se submeta à autoridade máxima e soberana de Deus.

No entanto, aqueles que não são nascidos de Deus permanecem à mercê da ação destes espíritos imundos. São apenas estas pessoas que podem ficam possuídas por demônios. Um convertido, ou seja, alguém nascido de novo, jamais ficará possuído por outro espírito além do Espírito Santo de Deus.

Para os convertidos, a recomendação é apenas esta: Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós (Tg 4.7). Devemos apenas resistir às suas tentações. Ele continuará a agir externamente tentando nos seduzir e fazer cair. Cabe a nós resistirmos e fugirmos para que nada roube a nossa paz.


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Fonte: Wilson Porte Jr via Púlpito Cristão.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Redirecionando a cosmovisão cristã em um mundo pós-moderno #PODCAST

Fala, cabraiada! Você sabe o que é cosmovisão? Você já ouviu falar que vivemos em tempos pós-modernos? Como podemos passar por esse mundo tão diverso sem corromper a nossa cosmovisão? Então, reunidos na Conferência Mundo, em Guarabira-PB, os cabras, Heder Judson e Ivandro Menezes se reuniram a cabruêra e convocaram Antognoni Misael (A arte de chocar) e o Pb. Jofre Garcia (IPB – Guarabira) para discutir como podemos redirecionar a nossa cosmovisão em um mundo de tantos relativismos. Enfim, dê o play (abaixo) e confira:
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 Fonte: Os Cabra Cast.

sábado, 25 de outubro de 2014

O que aconteceu com os evangélicos?

Por Augustus Nicodemus Lopes

Quando Paulo Romeiro escreveu Evangélicos em Crise em meados da década de 90, ele apenas tocou em uma das muitas áreas em que o evangelicalismo havia entrado em colapso no Brasil: a sua incapacidade de deter a proliferação de teologias oriundas de uma visão pragmática e mercantilista de igreja, no caso, a teologia da prosperidade.

Fica cada vez mais claro que os evangélicos estão atualmente numa crise muito maior, a começar pela dificuldade – para não falar da impossibilidade – de ao menos se definir hoje o que é ser evangélico.

Até pouco tempo, “evangélico” indicava vagamente aqueles protestantes de entre todas as denominações – presbiterianos, batistas, metodistas, anglicanos, luteranos e pentecostais, entre outros, que consideravam a Bíblia como Palavra de Deus, autoritativa e infalível, que eram conservadores no culto e nos padrões morais, e que tinham visão missionária.

Hoje, no Brasil, o termo não tem mais essa conotação. Ele tem sido usado para se referir a todos os que estão dentro do cristianismo em geral e que não são católicos romanos: protestantes históricos, pentecostais, neopentecostais, igrejas emergentes, comunidades dos mais variados tipos, etc.

É evidente a crise gigantesca em que os evangélicos se encontram: a falta de rumos teológicos definidos, a multiplicidade de teologias divergentes, a falta de uma liderança com autoridade moral e espiritual, a derrocada doutrinária e moral de líderes que um dia foram reconhecidos como referência, o surgimentos de líderes totalitários que se auto-denominam pastores, bispos e apóstolos.

A conquista gradual das escolas de teologia pelo liberalismo teológico, a falta de padrões morais pelos quais ao menos exercer a disciplina eclesiástica, a depreciação da doutrina, a mercantilização de várias editoras evangélicas que passaram a publicar livros de linha não evangélica, e o surgimento das chamadas igrejas emergentes. A lista é muito maior e falta espaço nesse post.

Recentemente um amigo meu, respeitado professor de teologia, me disse que o evangelicalismo brasileiro está na UTI. Concordo com ele. A crise, contudo, tem suas raízes na própria natureza do evangelicalismo, desde o seu nascedouro.

Há opiniões divergentes sobre quando o moderno evangelicalismo nasceu. Aqui, adoto a opinião de que ele nasceu, como movimento, nas décadas de 50 e 60 nos Estados Unidos. Era uma ala dentro do movimento fundamentalista que desejava preservar os pontos básicos da fé (veja meu post sobre Fundamentalismo), mas que não compartilhava do espírito separatista e exclusivista da primeira geração de fundamentalistas.

A princípio chamado de “neo-fundamentalismo”, o evangelicalismo entendia que deveria procurar uma interação maior com questões sociais e, acima de tudo, obter respeitabilidade acadêmica mediante o diálogo com a ciência e com outras linhas dentro da cristandade, sem abrir mão dos “fundamentos”.

Eles queriam se livrar da pecha de intransigentes, fechados, bitolados e obscurantistas, ao mesmo tempo em que mantinham doutrinas como a inerrância das Escrituras, a crença em milagres, a morte vicária de Cristo, sua divindade e sua ressurreição de entre os mortos. Eram, por assim dizer, fundamentalistas esclarecidos, que queriam ser reconhecidos academicamente, acima de tudo.

O que aconteceu para o evangelicalismo chegasse ao ponto crítico em que se encontra hoje? Tenho algumas idéias que coloco em seguida.

1. O diálogo com católicos, liberais, pentecostais e outras linhas sem que os pressupostos doutrinários tivessem sido traçados com clareza. Acredito que podemos dialogar e aprender com quem não é reformado. Contudo, o diálogo deve ser buscado dentro de pressupostos claros e com fronteiras claras. Hoje, os evangélicos têm dificuldades em delinear as fronteiras do verdadeiro cristianismo e de manter as portas fechadas para heresias. 

2. A adoção do não-exclusivismo como princípio. Ao fazer isso, os evangélicos começaram a abrir a porta para a pluralidade doutrinária, a multiplicidade de eclesiologias e o relativismo moral, sem que tivessem qualquer instrumento poderoso o suficiente para ao menos identificar o que estivesse em desacordo com os pontos cruciais.

3. O abandono gradual da aderência a esses pontos cruciais com o objetivo de alargar a base de comunhão com outras linhas dentro da cristandade. Com a redução cada vez maior do que era básico, ficou cada vez mais ampla a definição de evangélico, a ponto de perder em grande parte seu significado original.

4. O abandono da confessionalidade, das grandes credos e confissões do passado, que moldaram a fé histórica da Igreja com sua interpretação das Escrituras. Não basta dizer que a Bíblia não tem erros. Arminianos, pelagianos, socinianos, unitários, eteroteólogos, neopentecostais – todos afirmarão isso.

O problema está na interpretação que fazem dessa Bíblia inerrante. Ao jogar fora séculos de tradição interpretativa e teológica, os evangélicos ficaram vulneráveis a toda nova interpretação, como a teologia relacional, a teologia da prosperidade, a nova perspectiva sobre Paulo, etc.

5. A mudança de uma orientação teológica mais agostiniana e reformada para uma orientação mais arminiana. Isso possibilitou a entrada no meio evangélico de teologias como a teologia relacional, que é filhote do arminianismo. Permitiu também a invasão da espiritualidade mística centrada na experiência, fruto do reavivalismo pelagiano de Charles Finney. 

Essa mudança também trouxe a depreciação da doutrina em favor do pragmatismo, e também o antropocentrismo no culto, na igreja e na missão, tudo isso produto da visão arminiana da centralidade do homem.

Mas talvez o pior de tudo foi a perda da cosmovisão reformada, que serviria de base para uma visão abrangente da cultura, ciência e sociedade, a partir da soberania de Deus sobre todas as áreas da vida. Sem isso, o evangelicalismo mais e mais tem se inclinado a ações isoladas e fragmentadas na área social e política, às vezes sem conexão com a visão cristã de mundo.

6. Por fim, a busca de respeitabilidade acadêmica, não somente da parte dos demais cristãos, mas especialmente da parte da academia secular. Essa busca, que por vezes tem esquecido que o opróbrio da cruz é mais aceitável diante de Deus do que o louvor humano, acabou fazendo com que o evangelicalismo, em muitos lugares, submetesse suas instituições teológicas aos padrões educacionais do Estado e das universidades.

Padrões esses comprometidos metodológica, filosófica e pedagogicamente com a visão humanística e secularizada do mundo, em que as Escrituras e o cristianismo são estudados de uma perspectiva não cristã. Abriu-se a porta para o velho liberalismo.

Não há saída fácil para essa crise. Contudo, vejo a fé reformada como uma alternativa possível e viável para a igreja evangélica brasileira, desde que se mantenha fiel às grandes doutrinas da graça e aos lemas da Reforma, e que faça certo aquilo que os evangélicos não foram capazes de fazer:

(1) dialogar e interagir com a diversidade delineando com clareza as fronteiras do cristianismo; 

(2) abandonar o inclusivismo generalizado e adotar um exclusivismo inteligente e sensível;

(3) voltar a valorizar a doutrina, especialmente os pontos fundamentais da fé cristã expressos nos credos e confissões, que moldaram os inícios do movimento evangélico.

Talvez assim possamos delinear com mais clareza os contornos da face evangélica em nosso país.


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Augustus Nicodemus Lopes é um dos mais respeitados teólogos brasileiros. Seus textos podem ser lidos no excelente blog O Tempora, O Mores! Via Púlpito Cristão.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

CRER NA BÍBLIA NÃO É UMA ATITUDE IRRACIONAL


Por Leonardo Gonçalves

Em nosso tempo, os teólogos e “novos pensadores” do cristianismo têm arvorado diversas bandeiras diferentes. O cenário teológico está cada vez mais conturbado, e movimentos estranhos surgem com uma rapidez nunca vista. As linhas que regem as crenças do “nova espiritualidade” são as mais diferentes possíveis, podendo variar do marxismo teológico à espiritualidade medieval, ou mesmo do neoliberalismo ao teísmo aberto. Contudo, parece haver um ponto em que os novos pensadores estão de acordo: Todos eles, em maior ou menor proporção, duvidam que toda a bíblia seja a Palavra de Deus inspirada, e alegam que o texto original foi modificado. Ao que parece, a tendência é conservar o elemento místico do cristianismo, sem contudo submeter-se à autoridade da Bíblia como regra de fé.

Na contramão deste movimento está o filósofo, teólogo e fundador do Southern Evangelical Seminary, dr. Norman L. Geisler. Em seu livro “Não tenho fé suficiente para ser ateu” (Ed. Vida), ele afirma que 99,9% do conteúdo do NT é livre de real preocupação, e que nenhuma doutrina central do cristianismo repousa sobre um texto duvidoso. J. B. Payne em sua obra “Enciclopédia de profecias bíblicas” apresenta 191 profecias relacionadas ao esperado Messias e Salvador judeu, e mostra como todas foram cumpridas literalmente na vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus de Nazaré. Também Josh McDowell, um dos mais importantes apologistas contemporâneos, fala de mais de 300 referências ao Messias contidas no Antigo Testamento, as quais se cumpriram em Jesus. Todos estes fatos somados compõem um forte argumento em favor da autoridade e inspiração das Escrituras.

Até mesmo o agnóstico e crítico do Novo Testamento, Barth Ehrman admite que “na verdade, a maioria das alterações encontradas no início de manuscritos cristãos nada tem a ver com teologia ou ideologia”. Segundo ele, tais alterações em muitos casos não passam de “erros ortográficos e acidentais”. Considerando que o NT possui cerca de 5.700 manuscritos, conclui-se que é possível reconstruir o texto à partir da comparação das cópias existentes, de modo a afirmar que o texto atual é bastante fiel ao que foi o texto original, descartando a hipótese de que o texto foi gravemente modificado para servir aos interesses da religião, teoria que quando avaliada à luz de argumentos sólidos mais se assemelha àquelas esdrúxulas teorias conspiratórias que circulam na internet.

Estas e tantas outras evidências que são apresentadas em favor do cristianismo são suficientes para dizer que o texto da bíblia conserva todas as idéias originais do cristianismo, sendo totalmente digno da nossa apreciação e crença. O argumento dos neoliberais brasileiros, no entanto, carece de confirmação e está baseado em falácias óbvias que já foram amplamente desmascaradas ao longo da história.

Por isso, e por muitos outros fatos que não caberiam neste breve artigo, afirmo sem nenhum receio minha crença na Bíblia. Não crer em tantas evidências seria o mesmo que pecar contra minha própria consciência.


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Leonardo Gonçalves é blogueiro, missionário em Piura - Peru, e editor do Púlpito Cristão


Nota: Em 2015, o apologista Josh McDowell, um dos maiores apologistas da atualidade, autor de dezenas de livros na área de teologia e apologética, entre eles "Evidencias que Exigem um Veredito I e II", e "Mais que um Carpinteiro" estará palestrando na VINACC, um dos maiores eventos cristãos de sã doutrina da América Latina. A conferencia será gratuita, como sempre! Clique no banner e saiba mais:

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

PASTORES, LÍDERES E EDITORAS: PRECISAMOS DE UMA TEOLOGIA APOLOGÉTICA TUPINIQUIM

Por Leonardo Gonçalves

A apologética cristã – um discurso em defesa das doutrinas cristas - é talvez um dos tópicos mais negligenciados pelos nossos estudiosos. Raramente consta no currículo de algum seminário e comumente se confunde com a heresiologia. No entanto, o atual quadro do cristianismo me faz pensar que poucas vezes ela foi tão necessária. Em tempos difíceis como os nossos, em que evangélicos estão dando as mãos aos católicos, espíritas e budistas em nome do “diálogo inter-religioso” e em que despontam novas espiritualidades, algumas estranhas e avessas ao evangelho de Jesus, é preciso que a liderança séria do nosso país se desperte para a necessidade de elaborarmos uma sólida apologética com a qual possamos combater as doutrinas modernas, geralmente diluídas entre filosofias ocas e relativizantes.

Uma das razoes porque defendo que a teologia brasileira deve ter ênfase apologética, vem do nosso contexto histórico-cultural. Os portugueses trouxeram o catolicismo romano. Os africanos arribaram suas crenças em espíritos orixás. Os nativos contribuíram com suas crenças animistas. Isso sem falar no êxodo que houve por ocasião das guerras mundiais, quando japoneses, italianos, poloneses, alemães aportaram por aqui, cada grupo trazendo sua própria cultura religiosa, a qual se misturaria com as crenças já diluídas dos brasileiros. A verdade é que vivemos em uma nação continental onde credos e raças se confundem e exercem influencia sobre a sociedade e a religião, demandando dos pastores e pesquisadores um constante raciocínio apologético.

A segunda razão porque defendo a tese de que a teologia brasileira deve ser apologética, é a nossa obstinação em importar tendências. Historicamente acostumados a toda sorte de crenças estrangeiras, o povo brasileiro tem como praxe a “tolerância”. Na verdade, a nossa cultura se parece mais com uma grande esponja, a qual tudo absorve e incorpora, e esta tendência também pode ser vista nas igrejas. Assim, em um mesmo segmento evangélico é possível encontrar conceitos que variam da Teologia da Prosperidade ao Teísmo Aberto, e do Neopentecostalismo ao Liberalismo Teológico. É necessário que a liderança séria do nosso país seja revestida de uma percepção apologética e através de meditação e submissão à Palavra, comece a separar os alhos dos bugalhos.

A terceira razão porque defendo a elaboração de uma teologia apologética nacional é que ninguém conhece melhor a igreja brasileira do que os crentes brasileiros. Obviamente que, como muito do que acontece no cenário teológico é um déjà vu de alguma teologia que surgiu lá fora, a produção de apologistas estrangeiros é de grande importância para nós. Não podemos, porém, negligenciar o fato de que nosso país tem uma problemática própria e muitas das nossas inquietudes não perturbam os grandes mestres da apologia internacional. Lá, fala-se muito em ateísmo e evidências da ressurreição, mas aqui no Brasil o numero de ateus e de pessoas que não crêem na ressurreição é consideravelmente menor, sendo este assunto, em certo sentido, menos relevante para nós. Por outro lado, o brasileiro convive com espiritismo, reencarnacionismo e ritos africanos que se misturam com crenças cristas, mas pouca gente lá fora está preocupada com isso. Assim, ao importar todos os livros de apologética estrangeira, memorizar seus jargões e despejar aquele “grande conhecimento” sobre nossos ouvintes, corremos o risco de ser supérfluos ao ponto de responder perguntas que ninguém está fazendo.

Creio que o momento é oportuno para implantar a apologética em nossas escolas teológicas, dando a ela não um papel secundário, mas essencial na formação dos nossos teólogos e líderes eclesiásticos. Também penso que as editoras evangélicas não perderiam em investir em apologistas nacionais tanto ou até mais do que investem na tradução de obras estrangeiras, pois o que percebo é uma grande carência de estudos especializados voltados para nossa realidade nacional. Penso ainda que a popularidade dos blogs e sites que se dedicam à defesa do cristianismo em um contexto tupiniquim é a prova cabal de que jamais houve momento melhor para se investir nos apologistas nacionais.

É tempo de investir numa teologia com sotaque nordestino, mineiro, paulista e paraibana; uma teologia verde-amarela, indigena, mameluca, curiboca, teologia mulata, robusta, com cara de Brasil.

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Leonardo Gonçalves é pastor, missionário, e escreve no Púlpito Cristão

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O megafone de Deus - Por C.S. Lewis

C.S. Lewis

O espírito humano não tentará entregar a sua vontade própria enquanto tudo parecer estar em ordem com ela. Agora, tando o erro quanto o pecado têm essa característica: quanto mais profundos, menos as suas vítimas suspeitarão da sua existência; trata-se de maldades mascaradas. O sofrimento é uma maldade sem máscara, inconfundível; toda pessoa sabe que há algo de errado quando está sendo machucada. [...] Contudo, o sofrimento não é só imediatamente reconhecível, mas também um mal impossível de se ignorar. Podemos até nos contentar com nossos pecados e nossa estupidez; qualquer pessoa que já tenha observado glutões engolin do as mais exóticas especiarias, como se não soubessem o que estão comendo, admitirá que é possível ignorar até mesmo o prazer. Porém, o sofrimento insiste em que nos ocupemos dele. Deus sussurra em meio aos nossos prazeres, fala em nossa consciência, mas grita por meio do sofrimento. O sofrimento é o megafone de Deus para despertar um mundo surdo.

- de The Problem of Pain [O Problema do Sofrimento]

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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Existem espíritos de adultério, prostituição, embriaguez e vícios?

Por Leonardo Dâmaso

Uma crença que foi amplamente difundida pelo movimento de batalha espiritual americano a partir da década de 60, e que se tornou muito popular no meio evangélico pentecostal e neopentecostal são os famosos "espíritos do adultério, de prostituição, da embriaguez e dos vícios". É muito comum vermos pastores e cristãos pentecostais e neopentecostais com o hábito de orar no seu dia a dia caso se deparem com alguma situação que seja necessário a “repreensão ou a amarração” destes “espíritos malignos”. Vemos também nos “cultos de libertação”, “orações de guerra” em forma de “chavões ou jargões”, do tipo: espírito do adultério, de prostituição, da embriaguez e dos vícios - saia desta vida para nunca mais voltar!

Quem nunca presenciou, viu e ouviu alguém fazer uma “oração” desse tipo? Acredito que todos nós! Todavia, se estudarmos as Escrituras, especialmente o Novo Testamento diligentemente e meticulosamente, iremos perceber que não existe um texto sequer que aponte que adultério, prostituição, embriaguez e vícios de todo o tipo sejam espíritos malignos. Em contrapartida, os mesmos são classificados por Paulo em Gálatas 5.19-21 como “obras da carne”, isto é, pecados oriundos da nossa própria natureza pecaminosa, e não espíritos malignos (para inveja, que também é um pecado, e não um espírito maligno, veja 1Pe 2.1).

Augustus Nicodemus Lopes corrobora que os demônios denominados pela batalha espiritual como sendo demônios da lascívia, do ódio, da vingança, da embriaguez, da inveja e assim por diante, não aparecem no Novo Testamento. Essas coisas são, na verdade, as obras da carne mencionadas por Paulo em Gálatas 5.19-21. A solução para esses pecados não é expulsar demônios que supostamente os produzem, mas arrependimento, confissão e santificação.

Senão vejamos o que Tiago diz acerca deste assunto.

"Cada um, porém, é tentado pela própria cobiça [e não por demônios primariamente, porém estes podem influenciar na tentação em segundo plano] sendo por esta arrastado e seduzido. Então a cobiça, tendo engravidado, dá à luz o pecado; e o pecado, após ter-se consumado, gera a morte" - Tiago 1.14-15 (NVI)

Paulo, por sua vez, escreve:

"Não sabem que, quando vocês se oferecem a alguém para lhe obedecer como escravos, tornam-se escravos daquele a quem obedecem: escravos do pecado que leva à morte, ou da obediência que leva à justiça?" Romanos 6.16 (NVI)

Vejamos ainda outro exemplo descrito por Paulo que irá elucidar melhor a nossa compreensão.

"Por toda parte se ouve que há imoralidade entre vocês, imoralidade que não ocorre nem entre os pagãos, a ponto de alguém de vocês possuir a mulher de seu pai. E vocês estão orgulhosos! Não deviam, porém, estar cheios de tristeza e expulsar da comunhão aquele que fez isso? Apesar de eu não estar presente fisicamente, estou com vocês em espírito. E já condenei aquele que fez isso, como se estivesse presente. Quando vocês estiverem reunidos em nome de nosso Senhor Jesus, estando eu com vocês em espírito, estando presente também o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor" 1 Coríntios 5.1-5 (NVI)

Vemos que, não somente nas cartas de Paulo, mas em todo o Novo Testamento, os escritores bíblicos enfatizam muito mais a questão de pecados da carne ao invés de espíritos malignos ou possessão, haja vista que existem casos de possessão e de espíritos malignos atuando na vida de uma pessoa. Conforme é dito no texto, um jovem que fazia parte da igreja de Corinto estava mantendo relações sexuais com a mulher de seu pai, isto é, a sua madrasta, diz Paulo.

Apesar deste pecado, o apóstolo não disse que este jovem estava possuído ou influenciado pelo espírito da imoralidade, e, tampouco, ordenou que fizessem uma oração de libertação com imposição de mãos neste jovem, mas que o entregassem a Satanás; ou seja, que ele fosse expulso da comunhão da igreja para ser disciplinado por Deus através de Satanás, se arrependesse do seu pecado e retornasse a fé. A imoralidade ou a fornicação, contudo, é um pecado grave contra o nosso corpo, que é o templo do Espírito Santo (veja 1 Cor 6.18-20).

Entretanto, apesar do adultério, prostituição ou fornicação, embriaguez, vícios e inveja serem pecados da carne, contudo, a pessoa que prática estes pecados pode vir dar ocasião aos espíritos malignos para atuarem em sua vida, uma vez que eles [os espíritos malignos] podem, depois que a pessoa cedeu a sua vontade pecaminosa a estes pecados, influenciá-la e escravizá-la nestes e em outros pecados.

"Quando vocês ficarem irados, não pequem'. Apaziguem a sua ira antes que o sol se ponha, e não deem lugar ao diabo" Efésios 4.26-27 (NVI)

Concluímos, então, que, as supostas “orações de libertação” que muitos pastores e cristãos fazem expulsando os espíritos do adultério, prostituição, embriaguez e dos vícios, e o também famoso espírito da depressão [que é um transtorno ou uma doença mental, e não um espírito maligno] é antibíblico e, portanto, uma prática que deve ser diametralmente rejeitada.

Nota:

1. Augustus Nicodemus Lopes. O que vocêprecisa saber sobre Batalha Espiritual, pág 69. Fonte: Bereianos Poderá também gostar de: